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Ontem, o bebê reborn. Hoje, o adulto de chupeta. Amanhã, o limite será apenas o que ainda não chocou

  • Foto do escritor: Valdimar Souza
    Valdimar Souza
  • 12 de ago. de 2025
  • 2 min de leitura

Atenção: não é apenas uma moda passageira. É o sintoma de algo maior e mais preocupante. Não estamos falando de um objeto inocente, mas de um jogo calculado em que quem choca mais, ganha mais.

E, como em todo jogo, há quem se exponha, quem assista… e quem lucra.


As redes sociais transformaram a vida em um palco e a audiência em combustível. Cada gesto, cada escolha e cada objeto que aparece na câmera pode ser embalado como conteúdo e trocado por curtidas, comentários e seguidores. Nesse jogo, surgem comportamentos que não nascem da busca genuína por bem-estar, mas da necessidade planejada de ser visto e comentado.


Se antes embalavam bebês reborn, agora exibem chupetas. Não como recurso íntimo de autocuidado, mas como estratégia pública de engajamento. O raciocínio é previsível. Quanto mais inusitado, mais chances de viralizar. Quanto mais constrangedor, mais comentários. Quanto mais fácil de criticar, mais compartilhamentos. É o efeito manada digital. Alguns iniciam, outros copiam e, de repente, aquilo que era exceção vira tendência, não pelo sentido, mas pela promessa de audiência.


E aqui está o truque: quem assiste “apenas para rir” também faz parte da engrenagem. Cada visualização alimenta o algoritmo. Cada compartilhamento reforça o comportamento. Cada crítica gera mais alcance. No fim, todos participam da construção do espetáculo — até mesmo quem jura não apoiar.


Por trás dessa corrida existe uma mistura de carência afetiva e dopamina instantânea. A validação vem em números na tela e desaparece rápido, exigindo gestos cada vez mais chamativos. É um ciclo que ensina que se expor ao ridículo pode ser uma boa moeda de troca para se sentir importante, ainda que por alguns minutos.


O risco é claro. Quando a busca por visibilidade se sobrepõe à busca por sentido, comportamentos absurdos passam a ser normalizados e até incentivados. A vida vira um feed e a pessoa, um personagem moldado pela reação dos outros. No fim, não é a chupeta, nem o boneco, nem a modinha. É a lógica de uma cultura que premia mais o espetáculo do que a substância e nos empurra a fazer qualquer coisa desde que alguém esteja olhando.


Como psicólogo humanista, reconheço que por trás de cada gesto existe uma história, uma necessidade e, muitas vezes, uma dor não verbalizada. Mas a atenção que se busca no feed raramente supre a atenção que falta na vida real. A aceitação genuína, aquela que transforma, não se mede em curtidas. O verdadeiro desafio é ajudar cada pessoa a perceber que seu valor não está no impacto de um vídeo, mas na solidez de quem ela é quando ninguém está assistindo.

 
 
 

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